Dia 12 de março, Dia do
Bibliotecário.
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Gravura - o interior
da biblioteca de Alexandria
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Hoje, fui desafiado a fazer um
texto sobre o Dia do Bibliotecário. Eu poderia falar muitas coisas, principalmente
da importância que os bibliotecários e as bibliotecárias que atendem ao
Instituto de Letras da UERJ tiveram em toda a minha vida acadêmica. Eu poderia
falar das quantidades absurdas de pesquisa feitas ao longo da graduação,
especialização e mestrado, que seriam muito mais complicadas sem eles/elas. Poderia
falar da origem da biblioteca de Alexandria, de 288 a.C., ou de nomes relevantes
para a Biblioteconomia, como Melvil Dewey, criador do CDD. Ou, ainda, e
principalmente, poderia falar da minha completa falta de informação do que
seria uma biblioteca ou um bibliotecário quando entrei na graduação, em 1992.
Claro que eu já tinha entrado em uma biblioteca antes, mas quando somos
crianças, não prestamos muita atenção a essas coisas de adulto... nem tive
professor que me dissesse o que era uma biblioteca, ou o que fazia uma
bibliotecária.
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Ruínas da Biblioteca de Adriano,
na Turquia.
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Após trabalhar com revistas
acadêmicas e diagramação de livros, revisão de textos e grande quantidade de
bibliografias, acabei vindo trabalhar na Rede Sirius, uma biblioteca
universitária de referência. Eu, que até então conhecia biblioteca como usuário
(de fora para dentro), passei a ter uma visão de dentro para fora. Hoje, não
consigo entender como esse segmento profissional me era invisível, não consigo
ver uma sociedade do conhecimento sem o trabalho do profissional de
Biblioteconomia.
Por tudo isso, decidi não falar
algo novo, mas republicar um artigo postado aqui, em novembro de 2015. Assim,
trago novamente o texto para o topo da página deste blog para dar a oportunidade
de leitura àqueles que, atarefados, deixaram passar. Coloco no centro da cena a
pergunta:
Afinal, o que
é uma biblioteca?
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O interior de uma
biblioteca na Antiguidade, com pergaminhos
Fonte: portaldobibliotecario.com/2015/04/28/biblioteca-e-bibliotecario-ao-longo-da-historia/ |
Para os dicionários
(Aurélio, Caldas Aulete, da Porto Editora), existem três acepções básicas: 1)
uma coleção de livros para consultas e estudos; 2) um lugar onde essa coleção
se encontra; e 3) uma estante ou móvel onde se guardam os livros. Percebo que
essas definições não dão conta de explicar do que se trata. Não sou
bibliotecário, falo apenas como mero usuário, um usuário que frequentou e
frequenta bibliotecas e, por acaso ou destino, acabou indo trabalhar num núcleo
administrativo de uma rede de bibliotecas de uma universidade pública.
Uma biblioteca é
muito mais do que aquilo que qualquer definição possa nos apresentar. Existem
quatro aspectos mínimos que devemos observar ao pensarmos em defini-la,
igualmente importantes, que não devem ser desconsiderados. O primeiro é o
físico: aquele lugar onde estão reunidas obras publicadas, ou manuscritos (sim,
ainda é esse o nome que se dá às obras não publicadas); onde podemos consultar,
escolher, cheirar, manusear os livros impressos e outros documentos; um lugar
de encontro, troca de ideias, ou de aquisição de ideias novas.
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Obras raras do MID / Rede Sirius
Foto por Elir Ferrari
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Um segundo aspecto é
o trabalho do/a bibliotecário/a. Um trabalho invisível para nós, meros
usuários. Biblioteconomia é uma ciência que trata do arranjo e da organização,
que administra a biblioteca, mas não só. A localização das obras interna e
externamente, a aquisição de acervos, os registros das informações,
referências, classificações, tudo isso é um trabalho muito complexo, pois é
necessário relacionar obras, informações, assuntos localmente e nos sistemas
que permitem a busca em/de outras bibliotecas; são enlaces imprescindíveis para
uma pesquisa, essencial para a aprendizagem. Sem isso, estaríamos perdidos no
meio dos livros e poderíamos nos afogar num mar de textos desconexos. A chamada
Tecnologia da Informação, as bases de dados de pesquisa, as novas formas de
gerenciamento de conteúdo dependem desse profissional, que faz esse trabalho
que os usuários não sabem que existe. Sem contar com o auxílio luxuoso que nos
dão no momento em que precisamos buscar conteúdos, ampliar nossa pesquisa,
encontrar novos caminhos.
O terceiro aspecto é
o que o usuário mais percebe. Por mais que a Internet já tenha modificado
certas práticas de pesquisa e estudo, biblioteca é o lugar onde está o conteúdo
para o conhecimento. Falo do conteúdo organizado, onde um fio leva a outro,
desvelando o novelo que desenrola, mas mantém a linha condutora de ponta a
ponta. Por mais que se encontre conteúdos na Internet (onde existem excelentes
partes de bibliotecas, como eBooks, dicionários online, artigos acadêmicos), é
na biblioteca que está a melhor organização, a separação por assunto ou área,
onde se pode encontrar livros lado a lado, folheá-los e decidir quais servirão
para a pesquisa. A Internet facilitou muito, permitiu encontrar livros que
jamais imaginaríamos encontrar, que precisaríamos visitar várias bibliotecas
para consegui-los, mas o que seria da Internet se esses livros não tivessem
passado por uma organização e preenchimento das informações necessárias que
permitem aos mecanismos de busca acessá-los? Mesmo buscando livros avulsos
online, o papel da biblioteconomia se faz presente. Vale dizer que conteúdos
organizados, referenciáveis, recuperáveis em busca online, dependem da
biblioteconomia.
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Encontro do livro
impresso e eletrônico
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O quarto aspecto é o
das práticas sociais e discursivas. Livros e bibliotecas são queimados ao longo
da história, seja por questões religiosas, seja por motivações políticas. Uma
biblioteca bem servida pode representar uma ameaça a governos ditadores, ou
grupos extremistas, mas são sempre libertárias, pois nos tiram da ignorância e
nos inserem num mundo novo. A biblioteca está inserida nas práticas
civilizatórias, nas culturas, na nossa vida, seja qual for a forma. Mesmo que
nunca se tenha entrado em uma, é preciso sabermos que ela alimentou as
disciplinas, as escolas, as universidades; ela permitiu os ensinamentos, os
letramentos, facilitou o acesso, orientou e disponibilizou conteúdos, correntes
teóricas, visões de mundo. Se uma cidade é construída, se uma doença é curada,
se um celular foi inventado, muito se deve à biblioteca, que guardou e cuidou
dos manuais, compêndios, projetos, relatórios e coleções de livros que
registram os relatos e procedimentos para gerações futuras.
Enviado por Elir Ferrari
Obrigada, Elir, pela reprodução deste texto magistral sobre nossa profissão. É muito gratificante saber que apesar dos avanços tecnológicos, o ser humano por trás de toda a organização e disseminação do conhecimento ainda tem seu valor reconhecido, e, principalmente, enaltecido !! Parabéns a todos os bibliotecários do planeta !!
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